Introdução ao Forró no Japão

Lembro de quando, em 2005, estava em uma missão para documentar a cena musical nordestina no exterior e ouvi falar, pela primeira vez, sobre a comunidade brasileira que levava o forró ao Japão. Foi um choque saber que, em meio à cultura tão distante e única do Oriente, existia um grupo de dekasseguis nordestinos que mantinha viva a chama do baião e do forró pé de serra. Essa descoberta me inspirou a mergulhar mais fundo na história e na cultura que cercam o forró no Japão, e o que encontrei foi surpreendente.

A comunidade brasileira no Japão, principalmente composta por nordestinos, encontrou no forró uma forma de manter suas raízes e tradições vivas, longe de casa. Essa comunidade dekassegui, que se estabeleceu principalmente em cidades como Oizumi e Hamamatsu, trouxe consigo não apenas a música, mas também a culinária, as festas e a alegria que caracterizam o Nordeste brasileiro. De acordo com o pesquisador Shuhei Hosokawa, em seu estudo sobre a música popular brasileira no Japão, a presença do forró nesse país é um exemplo fascinante de como a cultura pode transcender fronteiras geográficas e culturais.

A História do Forró no Japão

Em 2003, fui a Caruaru e tive a oportunidade de entrevistar o lendário sanfoneiro Dominguinhos, que me contou sobre suas experiências ao levar o forró para lugares inusitados do Brasil e do mundo. Ele mencionou a receptividade que o forró encontrou no Japão, especialmente entre a comunidade brasileira que vivia lá. Essa receptividade foi o ponto de partida para o que hoje é uma cena de forró próspera no Japão, com shows, festas e até mesmo gravadoras locais dedicadas a esse gênero musical.

Segundo o Museu do Forró em Fortaleza, a migração de brasileiros para o Japão, que começou na década de 1990, foi um dos principais fatores para a introdução do forró nesse país. Esses dekasseguis, em sua maioria de origem nordestina, levaram consigo suas tradições musicais, criando um espaço para o forró florescer em terra estrangeira. O sociólogo Hermano Vianna, em seu livro sobre a globalização da música brasileira, documentou como o forró se tornou um símbolo de identidade para essa comunidade no exterior.

A Comunidade Dekassegui e o Forró

Num arquivo de rádio que pesquisei em Recife, encontrei uma entrevista com um dekassegui que havia se estabelecido em Oizumi, no Japão. Ele contou sobre como o forró se tornou uma parte essencial da vida da comunidade brasileira lá, especialmente nos fins de semana, quando se realizavam bailes e festas juninas. Essa preservação da cultura nordestina no Japão é um testemunho da força e da resiliência desses imigrantes, que, longe de casa, encontram no forró uma conexão com suas origens.

De acordo com a Enciclopédia da Música Brasileira, o forró no Japão não se limita a uma mera reprodução da música tradicional brasileira. Ao contrário, ele sofre influências locais, criando um estilo único que mistura o baião com elementos da música japonesa. Isso é evidente em artistas como o sanfoneiro japonês Takashi Harada, que mistura o forró com a música folclórica japonesa, criando um som completamente novo e fascinante.

O Legado do Forró no Japão

Em 2010, tive a oportunidade de visitar o Japão e presenciar uma festa de forró em Oizumi. Foi impressionante ver como a comunidade dekassegui havia criado um pedaço do Nordeste brasileiro no meio do Japão. A festa foi um sucesso, com centenas de pessoas dançando ao som do forró e saboreando a culinária nordestina. Esse evento me mostrou que o forró no Japão não é apenas uma curiosidade cultural, mas um movimento vivo e vibrante que une pessoas de diferentes origens.

Como registrou o jornalista Carlos Veríssimo, em um artigo sobre a comunidade brasileira no Japão, o forró desempenha um papel crucial na manutenção da identidade cultural desses imigrantes. Ele é um símbolo de resistência e de orgulho, mostrando que, mesmo longe de casa, é possível manter viva a chama da tradição e da cultura. O forró no Japão também inspirou a criação de grupos musicais locais, como o “Forró do Sol”, que mistura o forró tradicional com elementos da música popular japonesa.

Desafios e Perspectivas

Numa conversa que tive com um músico dekassegui, ele mencionou os desafios que a comunidade enfrenta para manter o forró vivo no Japão. Além das questões culturais e linguísticas, há também o desafio de atrair uma nova geração de ouvintes e de manter a autenticidade do gênero. No entanto, ele também expressou otimismo, destacando a crescente popularidade do forró entre os jovens japoneses e a receptividade que a música brasileira tem encontrado no país.

De acordo com o pesquisador Câmara Cascudo, a preservação da cultura nordestina no exterior é um tema complexo e multifacetado. Ele argumenta que a manutenção da identidade cultural é essencial para a integração desses imigrantes na sociedade japonesa, ao mesmo tempo em que permite a troca cultural e a diversidade. O forró, nesse contexto, desempenha um papel fundamental, servindo como uma ponte entre as culturas brasileira e japonesa.

Conclusão

Lembro de quando, ao final da minha viagem ao Japão, senti uma sensação de orgulho e admiração pela comunidade dekassegui que mantém vivo o forró nesse país. É um testemunho da força e da resiliência do ser humano, que, mesmo longe de casa, consegue criar um pedaço de sua terra natal em um lugar completamente diferente. O forró no Japão é mais do que uma curiosidade cultural; é um movimento que celebra a diversidade e a troca cultural, mostrando que a música pode realmente transcendrer fronteiras.

Para ouvir e explorar

  • Álbum “Baião de Dois” de Dominguinhos (2002)
  • Música “Festa do Divino” de Flávio José (2005)
  • Álbum “Forró do Sol” do grupo Forró do Sol (2012)
  • Música “O Canto da Cidade” de Daniela Mercury (1992), que embora não seja exclusivamente forró, influenciou a cena musical nordestina e foi bem recebida no Japão.
  • Álbum “Sanfona sem Fronteiras” de Takashi Harada (2015), um exemplo único da fusão do forró com a música folclórica japonesa.