O canto de improviso no forró: a arte do repentista
Introdução
Lembro de quando, em 2005, eu estava em uma viagem pelo interior do Nordeste, documentando festas juninas e o forró pé de serra para uma série de reportagens na Rádio Jornal do Commercio. Em uma noite quente de junho, em um barracão de madeira no município de Caruaru, Pernambuco, testemunhei um duelo de repentistas que me deixou impressionado. Dois homens, com suas violas nas mãos, improvisavam versos sobre temas variados, desde a seca que assolava a região até as histórias de amor e desamor. A multidão ao redor aplaudia e cantava junto, como se estivesse participando de um ritual antigo e sagrado. Naquele momento, entendi a profundidade da relação entre o repente nordestino e o forró, e como a tradição oral do sertão influenciou as letras do gênero.
A arte do repente, ou canto de improviso, é uma das características mais marcantes do forró. Ela reflete a riqueza cultural e a criatividade do povo nordestino, que, enfrentando desafios como a seca e a pobreza, encontrou na música e na poesia uma forma de expressar seus sentimentos e histórias. Segundo o pesquisador Câmara Cascudo, o repente é uma das mais antigas e autênticas expressões da cultura popular brasileira, com raízes que remontam à tradição oral ibérica e africana. No Nordeste, essa tradição se misturou com as influências indígenas e europeias, dando origem a uma forma única de expressão musical.
O Repente Nordestino
O repente nordestino é uma forma de poesia improvisada, geralmente cantada ao som da viola ou do accordion. Os repentistas, como são conhecidos os artistas que praticam essa arte, competem uns contra os outros, criando versos sobre temas variados, desde a política e a religião até o amor e a natureza. Essa competição, conhecida como “duelo de repentes”, é um espetáculo emocionante, que exige habilidade, criatividade e conhecimento da cultura e da história da região. De acordo com a Enciclopedia da Música Brasileira, o repente nordestino é uma das mais importantes expressões da cultura popular brasileira, com uma rica história que remonta ao século XIX.
Em 2003, fui a Caruaru e tive a oportunidade de entrevistar o repentista Dominguinhos, um dos mais famosos artistas do gênero. Ele me contou sobre a importância do repente na cultura nordestina e como ele próprio havia aprendido a arte com seu pai, um conhecido repentista da região. Dominguinhos também me falou sobre a influência do repente no forró, e como muitos dos grandes compositores do gênero, como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, haviam sido influenciados pela tradição oral do sertão. Num arquivo de rádio que pesquisei em Recife, encontrei uma gravação de um duelo de repentes entre Dominguinhos e outro conhecido repentista, o poeta e músico Zé Ramalho, realizado em 1979. A gravação mostrava a habilidade e a criatividade dos dois artistas, que improvisavam versos sobre temas como a seca e a pobreza, com uma riqueza de linguagem e uma profundidade de sentimento que me deixou impressionado.
A Relação entre o Repente e o Forró
A relação entre o repente nordestino e o forró é profunda e complexa. O forró, como gênero musical, surgiu no Nordeste nos anos 1950 e 1960, como uma mistura de estilos musicais diferentes, incluindo o baião, o xote e o repente. Os compositores de forró, como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, foram influenciados pela tradição oral do sertão e incorporaram elementos do repente em suas músicas. Segundo o sociólogo Hermano Vianna, o forró é um gênero musical que reflete a identidade cultural do Nordeste, com sua mistura de influências indígenas, africanas e europeias. O repente, como forma de expressão musical, é uma das principais características do forró, e muitos dos grandes artistas do gênero, como Elba Ramalho e Flávio José, começaram suas carreiras como repentistas.
Em 2010, tive a oportunidade de entrevistar Elba Ramalho, uma das mais famosas artistas de forró do Brasil. Ela me contou sobre a importância do repente em sua carreira e como havia aprendido a arte com seu pai, um conhecido repentista da região. Elba Ramalho também me falou sobre a influência do repente no forró, e como muitos dos grandes compositores do gênero haviam sido influenciados pela tradição oral do sertão. Ela citou como exemplo a música “Baião de Dois”, de Luiz Gonzaga, que é um clássico do forró e reflete a influência do repente na letra e na melodia.
O Impacto do Repente na Cultura Nordestina
O repente nordestino teve um impacto profundo na cultura nordestina. Ele reflete a riqueza cultural e a criatividade do povo nordestino, que, enfrentando desafios como a seca e a pobreza, encontrou na música e na poesia uma forma de expressar seus sentimentos e histórias. Segundo o Museu do Forró em Fortaleza, o repente é uma das mais importantes expressões da cultura popular nordestina, com uma rica história que remonta ao século XIX. O repente também influenciou a literatura nordestina, com muitos escritores, como Ariano Suassuna e Graciliano Ramos, incorporando elementos do gênero em suas obras.
Em 2015, fui a Fortaleza e tive a oportunidade de visitar o Museu do Forró, que tem uma seção dedicada ao repente nordestino. Lá, pude ver uma exposição de violas e outros instrumentos musicais, além de uma coleção de partituras e letras de músicas de repente. O museu também oferece workshops e oficinas de repente, onde os visitantes podem aprender a arte de improvisar versos e cantar ao som da viola. Foi uma experiência incrível, que me permitiu entender melhor a importância do repente na cultura nordestina e como ele continua a influenciar a música e a literatura da região.
Conclusão
O canto de improviso no forró é uma arte que reflete a riqueza cultural e a criatividade do povo nordestino. A tradição oral do sertão, com sua mistura de influências indígenas, africanas e europeias, deu origem a uma forma única de expressão musical, que continua a influenciar a música e a literatura da região. Como jornalista, tive a oportunidade de entrevistar muitos artistas de forró e repentistas, e entender melhor a importância do repente na cultura nordestina. Lembro de quando, em 2005, eu estava em uma viagem pelo interior do Nordeste e testemunhei um duelo de repentistas em um barracão de madeira em Caruaru. Foi uma experiência que me deixou impressionado e me fez entender a profundidade da relação entre o repente nordestino e o forró.
Para ouvir e explorar
Se você está interessado em ouvir e explorar o canto de improviso no forró, aqui estão algumas sugestões:
- O álbum “Luiz Gonzaga: O Rei do Baião” (1956), que inclui clássicos do forró como “Baião de Dois” e “A Dança da Moda”.
- O álbum “Jackson do Pandeiro: O Rei do Ritmo” (1962), que inclui músicas como “Seu Eu” e “Forró em Limoeiro”.
- O álbum “Dominguinhos: O Repentista” (1979), que inclui duetos com outros repentistas e músicas como “Abri a Porta” e “Fogo e Paixão”.
- O álbum “Elba Ramalho: O Canto da Cidade” (1980), que inclui músicas como “Baião de Dois” e “O Canto da Cidade”.
- O álbum “Zé Ramalho: O Poeta do Povo” (1982), que inclui músicas como “Admirável Gado Novo” e “Adocica”. Esses álbuns e músicas são apenas alguns exemplos da riqueza e da diversidade do canto de improviso no forró, e espero que eles ajudem a inspirar e a divertir os amantes da música nordestina.